Jober Pascoal



Nome completo: Jober Pascoal Souza Brito

Nome artístico: Jober Pascoal

Signo: Ariano (com ascendente em Áries)

Religião: Umbandista

Time de futebol: Esporte Clube Vitória (com muitas decepções)

Livro de cabeceira: Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa)

Sua trajetória literária (livros lançados, participação em coletâneas etc.): Eu sou mestre em Estudo de Linguagens pela UNEB/PPGEL, doutorando em Literatura e Cultura pela UFBA/PPGLITCULT, licenciado e bacharel em Letras Vernáculas pela UFBA, tive meus primeiros contatos com a literatura ainda na infância, escutando os causos do interior. A “palavra cheia de ossos” saída de vozes que embargavam histórias de “lavandeiras e tanajuras” foi a melhor universidade que tive a meu dispor. Em razão disso, o exercício poético acabou recebendo o aporte da “oralitura”, cujo diálogo, sensível e instigante, acomodou uma relação complexa com a atual função de crítico literário que exerço nos círculos acadêmicos.
As diversas experiências acumuladas como docente, pesquisador, vendedor de livros foram se insistindo de tal maneira que o lugar da poesia apenas cumpria, em mim, uma função clínica; só depois é que o projeto de lançar meu primeiro “livro de poeta” ganhou a fase adulta e quis “ganhar o mundo”. Deste investimento, resultou um projeto, ainda sem publicação, chamado O ossuário da casa adormecida, cujo título decorreu de um poema, homônimo, que faz parte da seleção de escritos e que ganhou, em primeiro lugar, o Concurso de Poesias Vinícius de Moraes, no IV ELLUNEB - Encontro de Leitura e literatura da UNEB, em 2013.
No ano de 2017, ganhei a menção honrosa no VI Concurso de Poesias SESC/Piedade, alcançando o 4º lugar, com o poema “Remanso das águas turvas”. Ainda no mesmo ano, ganhei, no nono lugar, o 6º Concurso Literário Nacional da Farmácia Pague Menos, com o poema “A casa de minha alma”, o qual foi lançado em uma coletânea, em mídia impressa, intitulada “onde está o seu sonho?”, tema do concurso, igualmente recebi uma compensação financeira em razão do resultado.

Escrever é “questão de vida ou morte”?

Sempre de vida, de sanidade, de perlaboração, de semeadura. Deleuze, em “A literatura e a vida”, diz que escrever está sempre ao lado do informe, do inacabado, é “uma questão de devir”. É inseparável do devir, ao escrever, devimos-mulher, animal, pedra, molécula. E isso tudo é um exercício de saúde e de desconstrução na busca por atingir uma zona de vizinhança, de indiferenciação. 
Não se escreve com neuroses, psicoses, descontroles emocionais e pulsionais. Como diz Deleuze, “a doença não é processo, mas a paragem do processo”. O exemplo mais ilustrativo é o que aconteceu com Nietzsche. A doença o estagnou. A “morte” é uma circunstância poética, literária que serve à vida, como serviu a Manuel Bandeira, a Carlos Drummond de Andrade. A literatura, portanto, surge, volto a repetir, como uma tarefa de saúde, de clínica. Deixo um poema de minha autoria para tentar captar a atmosfera inteligente da “questão”:

UM GRITO PERDIDO NO ESCURO

Escrevo porque não sei assobiar canção fina,
Dessa bonita, arriada, que passa ponte, passa
Riacho e encurva a beiragem rasante. Cantador
Nenhum alcança num martelo agalopado.

Escrevo porque aprendi a penhorar, em palavra
Dura, o gole seco: nós-de-arame, livros de poeira.

Escrevo porque minha casa só tem
Um vão, as paredes cruas de cimento.

A lasca do reboco, cavada em folha de flandres.
A talha, manchada de água verde e limo: o exílio
Antigo da primeira morada onde tudo buscamos,
Nunca sairemos: os mares já foram navegados.


Tudo é válido em literatura?

Não. Nem tudo é válido na literatura. Machismos, misoginias, homofobias, racismos precisam ser tratados como tal, e se alguns livros mantêm esse perfil de violências, o mínimo que se exige das editoras – no caso de um livro racista como Tia Nastácia, de Monteiro Lobato, por exemplo – é uma nota explicativa. Até o próprio livro que eu cito como livro de preferência, Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, merece algumas notas explicativas pelo conteúdo racista de algumas passagens. Eu entendo perfeitamente o investimento de tradução do pensamento daquelas pessoas por parte do escritor, mas estamos em outro tempo, a comunidade interpretativa é outra.

A literatura veio de berço ou de um amor não correspondido?

Talvez o fim do berço tenha sido o primeiro de meus amores não correspondidos. No meu caso, o que eu escrevo, pincipalmente na poesia, apela ao berço, são narrativas de infância, de sofrimento com a maturidade, com uma tentativa de recuperar, não um tempo perdido, mas um tempo não vivido, uma imaginação de sabores que não provei.
Intuo que a literatura tenha se elaborado como devir em minha vida quando, sozinho, eu brincava com os cartões de natal e de pessoas falecidas na casa velha que eu morava. Eu não tinha amigos de minha idade, era uma criança muito introspectiva. Como não podia brincar de bonecas, de jogos imaginativos no hall daquele teatro invisível em que os personagens brotavam do chão, eu brincava com os cartões, encostando-os à parede. Deixo igualmente um poema que me embala o berço de lembranças vadias:

CASA VELHA

Faz uma falta esta casa

Não esta casa em que moram
Os livros e a correspondência
De luz, de água e telefone.

A casa em que moram os sonhos,
As muriçocas e o mosquiteiro,
A radiola e a agulha arranhada,
O cheiro materno de cigarro
E a voz de meu pai, embargando
Histórias de lavandeiras e tanajuras.

Nesta casa, em que moram avós,
Bisavós e outras tantas sombras.

Nesta casa, em que falha o reboco,
Restam vivas as marcas do candeeiro
E outras visagens sobre a cumeeira.

Qualquer dia ainda sacudo as pétalas
Amarelecidas sobre a toalha da mesa.

Qualquer dia ainda volto a embalar
Esse berço de lembranças vadias.


Qual a utilidade da literatura em sua vida?

Tudo é literatura, até o que não é: é. Eu não sou daquelas pessoas que acham que o pôr-do-sol é arte, que uma flor brotando é poesia, ou que um passarinho voando é um traçado literário. Aprendi com Alberto Caeiro e Manoel de Barros que “os parafusos se apertam no vento” e é essa parafusagem exatamente o que a gente nomeia como literatura, não o vento ou o parafuso, eles são só a substância que produz a vida, não a arte.
Eu não gosto de tudo o que leio (tem coisas impossíveis de ler em Drummond, por exemplo), mas já gostava de Guimarães Rosa antes mesmo de ler qualquer letra nele, porque a literatura está nessa ronda de coisas que caminham sem pés. Na minha casa, no interior, por exemplo, havia um volume de Primeiras Histórias e eu, nem sabia ler direito, ficava fascinado com aquela capa amarela, cheia de inscrições figurativas, um vão de coisas se despertava: um oito deitado (∞) junto a várias árvores e aves; uma interrogação caminhando no curso de vaqueiros e duas embarcações no mar onde se avista um montículo de cogumelos. Então, a literatura começou em minha vida antes mesmo de eu querer achar alguma utilidade artística nela. Começa assim na vida de muitas pessoas, de uma brincadeira, de uma sensação alegre ou triste, de um emparedamento com os cartões de natal.
Quanto ao significado da “utilidade” da literatura, eu não tão sou romântico quanto Oscar Wilde que acreditava que a arte era inútil e, por isso mesmo, diferenciava-se do artesanato ou de produções usuais. A arte africana, por exemplo, é usual, são utensílios do cotidiano, tem função ritual e não deixou de ser um objeto artístico por isso. Na literatura, a função se situa no campo da enunciação, dos agenciamentos coletivos, na convocação que faz a todo escritor de que ele tenha de inventar a sua própria língua, e a única maneira de defender uma língua é rebaixá-la, atacá-la. O baixo calão dá muitos préstimos a quem escreve; os idiomas de gueto, de terreiro, de torcida de time de futebol são uma forma divertida e criativa de utilizar a vida presente na literatura pulsante que há nas coisas.

Você escreve para conquistar o mundo ou para agradar os consagrados?

Escrever é uma prática que, muitas vezes, atua como um “corpo sem órgãos”, um CsO, como articulam Gilles Deleuze e Felix Guattari. O texto literário é um Outro, um resto de parição, uma monstruosidade cujo organismo, a depender do uso, desordena as funções do corpo social, como no caso das literaturas negra, gay, feminina, periférica, marginal, baiana, espírita, judaica, candomblecista etc.; funciona como uma espécie de “clínica” a serviço da construção daquilo que, modernamente, convencionou-se como “subjetividade”. E como é difícil tomar posse desse atributo. É uma prática de si, um “exercício de distração”, como diz Kátia Borges, que, em nada, tem de distrativo.
No que tange aos agrados, às consagrações, à conquista do mundo através da linguagem ali urdida, sou um operário-artesão do que produzo, seja no campo teórico, seja no campo literário, o texto tem uma “movência” muito singular. Então, se for pretencioso conquistar o mundo para um escritor – sem livro de poesia, ainda – como eu, talvez seja intuitivo deixar que o espectro que se forma a partir dessa “literatura menor” de meus despojos, de minhas abjeções possa escavar uma outra língua dentro desse idioma que nos mantém encarcerados. Por isso, antes de querer conquistar o mundo, eu tenha pretensão de conquistar a minha própria zona de subdesenvolvimento, o meu terceiro mundismo, aquele universo que todo mundo recusa e rejeita. 

Há um ritual para você escrever? Qual?

Há, sim. São gestuais comportamentais diferentes escrever poesia e produzir análises teóricas, por exemplo. Eu me divido entre essas duas margens. Para a primeira atividade, eu me encanto pela facilidade do formato de textos nas redes sociais; ali, penso no tamanho, no tipo de palavra, no corredor espremido de frases que se pode adequar ao formato de “status” no facebook, no twitter, e, principalmente, no conjunto de pessoas que aquele texto pretende atingir. Já com teoria, com discursões analíticas e sérias que eu tenha de produzir, eu me preparo, quase que profilaticamente, ponho ao lado todos os tipos de caneta, lápis, cadernos, anotações, livros etc. Tudo precisa estar limpo e arejado e com uma boa xícara de café do lado.
Aproveito o ofício de refletir sobre o rito de escrever para lançar palavras um tanto parnasianas:


Como um ritual em cova rasa,
Profano ofício, enterrar palavras.

 Um punhado de terra vai riscando
           o silêncio como um estouro.

 Como num enterro, as palavras
 Caem sobre um caixão de linhas
 E fazem uma cócega sob a pele:
                   
                       Riso de faca cortando a carne
                       Riso de tinta sangrando o papel.

 Depois de contemplar o absurdo
 Efeito da nova paisagem, só
 Saímos de perto após jogada
               a última pá de letra.


 A crítica tem valor mesmo se o alvo da crítica é a sua obra?

Sim. Quem me dera ser criticado por algo que alguém se interessou a partir de minhas produções, mesmo que seja o caminho tortuoso da sátira e do deboche, eu acredito que mesmo nesse “rancor crítico” há uma afeição que aciona um outro circuito de afetos que é muito saudável à literatura.

Autor ou autora que você ainda não alcançou:

Gilles Deleuze, com certeza. A natureza poética de seus escritos teóricos é inalcançável ainda... Fico me sentindo sempre um aliciador de menores quando tento me igualar a ele. Alguém que diz, como em Conversações, que escrever deveria manter dois vínculos, o de quem escreve com uma mão que se masturba e a outra rabisca na areia, é algo que subsume ao prazer narcisista e ao trabalho imprevisto e provisório da ação temporal. É um deleite abissal.

Entre escrever a obra-prima que te dê uma vida gloriosa e uma morte tranquila, o que você prefere? Justifique. 

Uma morte tranquila, com certeza. As causas de morte, na atualidade, são as mais violentas, algumas até com requinte de tortura. Isso me atravessa um pouco principalmente nesse tempo o qual se encontram investidas campanhas financeiras a favor do armamento contra populações minoritárias. Sendo gay, o meu corpo assume esse caráter imprevisto de uma morte anunciada. É como se todos os dias eu tivesse de pedir autorização para existir e resistir.
Em tempos sombrios como estes, o ensaio de Walter Benjamin, “o narrador”, parece retornar à superfície quando discute da ausência de protagonismo que as situações de morte sempre ofereceram aos viventes – o glamour das horas finais, reunindo toda a família, contando histórias e repassando o encargo dos conhecimentos apreendidos durante toda a vida – e que, depois das guerras mundiais, os homens voltavam “pobres de experiência” e os falecimentos eram sempre inabituais, trágicos e solitários; estamos, como naquele instante, fraturados e empobrecidos dessa atividade nobre, que sempre foi uma característica humana, contar histórias. Em razão disso, prefiro a uma obra-prima, a preservação de uma obra maior, o meu corpo.
A morte é a sanção de tudo o que, no ato de viver, podemos narrar. Benjamin lembra que morrer era antes um episódio público na vida do indivíduo, e seu caráter era altamente exemplar: recordem-se as imagens da Idade Média, nas quais o leito de morte se transforma num trono em direção ao qual se precipita o povo, através das portas escancaradas. Hoje, a morte é cada vez mais expulsa do universo dos vivos. Antes não havia uma só casa e quase nenhum quarto em que não tivesse morrido alguém. Hoje, os burgueses vivem em espaços depurados de qualquer morte e, quando chegar sua hora, serão depositados por seus herdeiros em sanatórios e hospitais. É no momento da morte que o saber e a sabedoria do sujeito e, sobretudo sua existência vivida – e é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela primeira vez uma forma transmissível.
Eu construí um poema, ante o leito de morte de minha tia Isaura, que celebra a intensidade dessa presença “prevista” aos noventa e oito anos de sua vida e que aciona um “eco de aspas” ainda não produzidas:


Ela me contava, rouca de quase nunca falar
- Eu me lembro bem - das coisas suas, azedas
Coisas de nem se ouvir: palavras verdes de
Oliva, noda de caju, baba-de-moça, cerejeira.

Certa vez me contou do Tempo. Seus olhos
Secos, represados, alargavam a distância de
Dois rios, córregos fundos, esquecidos.

- A gente tem que se apegar com Deus nessas
Horas - ela dizia - é das águas guardadas que
A gente, um dia, torna a talhar o açude.

Seus olhos negros molhados. Esses rios
Tão secos. Quando os olhos viram nuvens.

Ela não sabia que eu a fitava como se
Escuta, sem dormir, o relógio da parede, a
Aranha carpir o reboco, a água fria da fonte
Calhar, em gotas finas, o gemido abarroado.

Quando as horas da vida, tão poucas, adiava o
Encontro, ela se dobrava a rezar à Madonna
Dos Remédios, Senhora da Boa Morte



Comentários

  1. Parabéns meu querido. Leitura maravilhosa, leve e verdadeira. Muito orgulho de você��

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    1. Tati, que lindo! Fico totalmente afetado pelas linhas de palavras que se provam poéticas nesse seu comentário, aparentemente simples, mas que não são...

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  2. Eu nem sei o que comentar, porquê quando se ama alguém, nenhum erro cometido se dá por errado, ainda mais quando se ama alguém capaz de escrever desse jeito, e responder tão primorosamente, arquitetadamente a essas perguntas, como se estivesse criando uma estrutura sólida de um arranha-céu.
    "Jobelino" é tudo que há de bom, é aquele amigo que amamos ter, pra sorrir, pra falar e ouvir e antes de tudo ou mais nada de se ter o prazer de ler.
    Luiz Fernando Cunha

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    1. Fernando, meu velho, como bem sabedores que somos de nossa boa relação com as ideias, volto a dizer: não houve pessoa que eu tenha tido mais embaraço nas redes sociais, mais incompreensões, mais bloqueios (rs) que vc e, mesmo assim, o afeto que há em nós cria uma relação de muito respeito e carinho...

      Obrigado por ser amigo em toda essa turbulência política, poética...

      As palavrorias, entre nós, são córregos de muitas histórias sentimentais, afetantes...

      Oxalá seja assim sempre!

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  3. Respostas
    1. Ter você como um livro na minha estante já produz um eco de "aspas" em tudo que leio de mim e do mundo. Aprender com você não é tarefa fácil, aprender com seus escritos exige de mim uma compreensão da vida fora da estratégia comum de separar, como na metáfora bíblica, o joio do trigo. Ser seu amigo é algo em construção... A poesia está por nós como uma coisa dentro de outra coisa, como a boneca russa que tem diversas bonecas menores dentro de si. Aprendo sempre e me assumo leitor de tudo que você diz e escreve... Espero te ler mais e mais vezes, sempre...

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