Luciany Aparecida

               Fotografia: Grazi Soares


Nome completo: Luciany Aparecida Alves Santos

Nome artístico: Luciany Aparecida

Signo: Peixes

Religião: Ancestralidade

Time de futebol: Bahea

Livro de cabeceira: Sem cabeceira, minha cabeça tem apreço por repousar no movimento. Os livros da estante são muitos, no jogo de citar um, digo: Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto.

Sua trajetória literária (livros lançados, participação em coletâneas etc.): Escrevo a partir da criação de três assinaturas: Ruth Ducaso, com quem assinei textos que compõem a coletânea: Autores baianos: um panorama II (Funceb, 2014), ainda com Ruth Ducaso publiquei o livro Contos ordinários de melancolia (paralelo13S, 2017), que agora teve trechos traduzidos e publicados na recente edição do Asymptote Journal (2019), de Ruth e Antônio Peixôtro o Zine Auto-Retrato (Pantim Edições, 2018) e de Margô Paraíso, com quem assino poesia, o livro Ezequiel (Pantim Edições, 2018).  

Qual a utilidade da literatura em sua vida? 
Acionar verbos: movimentar.

A literatura veio de berço ou de um amor não correspondido? 
A literatura veio da água, do fogo, do chão, das ramagens, de pessoas, quando chegou no berço, se houve, a trança já estava enredada.

Você escreve para conquistar o mundo ou para agradar os consagrados? 
Eu penso que a literatura não resulta em conquista do mundo, tão menos em agrado a consagrados. O que dá conta dessas ações são outros movimentos que não o escrever, mas respectivamente: movimentos políticos de opressão e o puxa-saquismo.

Há um ritual para você escrever? Qual? 
Diversos. O primeiro, e que também pode ser o último, é como assino meus textos. Criei assinaturas como procedimentos de criação que me organizam na separação(fronteiriça) entre os gêneros literários. Assim, Margô Paraíso assino poesia; Ruth Ducaso, prosa e teatro; e Antônio Peixôtro, desenhos e versos. Outros rituais dependem do projeto que estiver realizando naquele período. Escrevo muito a partir da ação de fazer um conjunto de pesquisas e procedimentos, principalmente os textos que classifico como prosa. Por exemplo: os livros que assino como Ruth Ducaso foram e têm sido realizados a partir de variados procedimentos de composição. Para Contos ordinários de melancolia realizei, a partir de projeto financiado pela Funceb/Secult/2013, conversas com mulheres residentes na zona rural das regiões do vale do Rio Jiquiriçá, com idade entre 67 a 87 anos; para a novela (inédita) Florim, participei de oficinas de leitura e criação de poesia com mulheres em condição de cárcere; para o primeiro romance (inédito) dessa autora, compus, como artista residente do Instituto Sacatar, duas instalações que, em seus procedimentos, foram pesquisas para a escrita do livro. Realizo esses "rituais" ou procedimentos de pesquisa não com o objetivo de encontrar  enredos, histórias e/ou personagens, mas ritmos. A pesquisa me auxilia no ritmo que escolherei para as narrativas. Por exemplo, afiei o livro Contos ordinários de melancolia com vozes que dizem não ao machismo, racismo e a lugares fixos do que é pensado para mulheres: em alguns contos apresento personagens femininas que negam a maternidade. Em conclusão, para minha literatura, o "ritual" é indispensável, agora estou escrevendo sobre duas mulheres que podem ter vivido entre os séculos XVIII e XIX e os procedimentos têm sido tantos... mas isso é outra conversa.  

Escrever é “questão de vida ou morte”? 
Vida.

Tudo é válido em literatura? 
Tudo. Não estabeleço trincheiras para arte. Gostar ou não. Emocionar-se ou não. É gosto pessoal ou (modo) condicional de cada um.

A crítica tem valor mesmo se o alvo da crítica é a sua obra? 
A crítica ter valor ou não, é um campo de discussão teórico tão cheio de dobras... Eu, como acadêmica, pesquisadora de arte contemporânea, vou querer sempre o diálogo, o debate sobre esses conceitos: “crítica” e “valor”.  Como escritora viva, obviamente, quero ser lida e comentada por meus pares e por mais quem.

Autor ou autora que você ainda não alcançou. 
Eu gosto de chegar junto, penso que leitura é parceria, nossa com aquelas palavras ali – sobre isso não existe distanciamento; se existir, aí não é questão de “alcançar”, mas de deixar cair, sair, mudar daquela para aquelas outras palavras... palavras sempre existirão. Considero primordiais as diferenças. Pensando a arte a partir das possibilidades da liberdade, alcançar ou não alcançar não faz sentido.

Entre escrever a obra-prima que te dê uma vida gloriosa e uma morte tranquila, o que você prefere?
Prefiro uma vida gloriosa e a glória para mim é, sem dúvida, a liberdade.





PAPAI É PARAÍSO

Todos os seus germes
Nadam em rios de leite

As meninas papai afoga
Os meninos papai dá de comer na boca

(do livro Ezequiel de Margô Paraíso, Pantim Edições, 2018, p. 19)

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