Dênisson Padilha Filho



Nome completo: Dênisson Padilha de Souza Filho

Nome artístico: Dênisson Padilha Filho

Signo: Aquário.

Religião: Católico; assim, em fichas, entrevistas, formulários etc.

Time de futebol: de eternos vices a clubes sem estádios, deixe que os mortos enterrem os mortos.

Livro de cabeceira: Não gosto de citar um ou outro livro como "de cabeceira" pelo assunto que trazem, por sua dimensão narrativa, mas, sim, pela forma que sintetizaram, por sua dimensão estética. Sendo assim, posso citar vários. Para ficar em três, citaria: Aqui de dentro (Sam Shepard), Aura (Carlos Fuentes) e O céu em minhas mãos (Mempo Giardinelli).

Sua trajetória literária (livros lançados, participação em coletâneas etc.): Baiano, escritor e roteirista de audiovisual. Mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia. Autor de Eram olhos enfeitados de Sol (Penalux, 2017, novela)Trilogia do asfalto(Editora P55, 2016, contos),  O herói está de folga (Kalango, 2014, contos), Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012, contos e novelas), Carmina  e  os  vaqueiros  do  pequi (2003, romance) e Aboios celestes (1999, contos).  Integrei as coletâneas Outro livro na estante (Mondrongo, 2015, contos) e 82, uma Copa, quinze histórias (Casarão do Verbo, 2013, contos), entre outras. Tenho textos publicados em diversas revistas literárias.  Venci o Prêmio Internacional Cataratas de Contos - 2015.

Você escreve para conquistar o mundo ou para agradar os consagrados? 
Escrevo para os leitores que ainda não leram nada meu.

Escrever é “questão de vida ou morte”? 
Deve ser, sim. Não me lembro como é viver sem escrever; assim como não me lembro como é viver sem ler. Dito isto, acho que escrever e ler, não nessa ordem, são, sim, mais do que uma questão de sobrevivência, uma condição que estabeleci pra eu poder constar no mundo.

A literatura veio de berço ou de um amor não correspondido? 
Meu pai, além de ter sido um leitor acima da média, também era poeta e letrista e se arriscava numa crônica e noutra. Mas não sei se posso dizer que a literatura veio de berço. Acho que todo mundo que escolhe ou é escolhido por uma linguagem artística tem uma visão crítica em relação ao sentido da existência. Isso pressupõe o sentido da arte.

Qual a utilidade da literatura em sua vida? 
Consumir Arte Literária faz bem porque é um exercício de se contemplar as expressões estéticas frutos das inquietações humanas. Isso é melhor do que viver sem a Arte. Sendo escritor, digo que a Literatura me induz à reinvenção da vida. Mesmo brincando com as incertezas que nos marcam os dias e a existência, é fazendo Literatura que eu lanço mão do que a vida deixou passar; ou do que a palavra, em seu sentido seco e vernáculo, não deu conta de significar. Não costumo atribuir missão à arte; acho que o pensamento não deve ser esse, mas a utilidade da Literatura é reacender as perguntas que nos estruturam, e não respondê-las. Talvez também a literatura venha da necessidade de se vingar de Deus, dizendo a Ele: ok, Papai, estamos no mato-sem-cachorro, mas não ache que não sabemos disso.

Há um ritual para você escrever? Qual? 
Sim. Escrevo muito cedo, sempre. Depois de uma lauda manuscrita, vou pro computador. É como encontro fluidez na criação; e é como dou um primeiro tratamento no texto. Vale dizer que, antes disso, sigo um método que adotei há muito tempo: anotar o argumento em no máximo cinco linhas. Perguntar-me o que quero contar. Sinto que essa pergunta, por um lado, me encurrala, mas num segundo momento me revela. E o resto é ao longo da criação. Há em meu processo, também, no decorrer do conto, momentos em que refaço essa pergunta e, muitas vezes, o norte do conto se refaz.

Tudo é válido em literatura? 
Desde que se reinvente a palavra. Porque, senão, fica grotesco, gratuito e repetitivo.

A crítica tem valor mesmo se o alvo da crítica é a sua obra? 
Toda crítica tem muito valor se ela for aproveitável pelo autor e pelo leitor em potencial. Dizer que a obra é ruim ou boa não cabe à crítica e não ajuda a ninguém. Acho que uma boa crítica deve falar o que a obra traz e, de preferência, sem juízo de valor. 

Autor ou autora que você ainda não alcançou. 
Eu sou cheio de mestres, todos eles, tão logo são mortos e devorados por mim, são considerados bons mestres. Sendo assim, posso dizer que não alcancei Sam Shepard. Considero-o, como escritor contemporâneo, a medida certa. Já li e reli toda a obra dele, mas ainda não o alcancei.

Entre escrever a obra-prima que te dê uma vida gloriosa e uma morte tranquila, o que você prefere?
Prefiro uma morte tranquila, sem dúvida alguma, porque acho que uma obra-prima não traz uma vida gloriosa. É a diferença básica entre êxito e sucesso.





"Eu de Preto, Eu de Cinza e eu, que assisto a tudo da mesa ao lado, agora fundidos finalmente. Naquele velho estado de vigília, fico ruminando as cenas. Tento colar os recortes, a redoma, a casa na praia, a rede na varanda, o passeio ao sol poente e a mulher de unhas azuis, todos tão familiares.

 Pela janela vejo o Sol se pondo. Acordo dessa aventura que seria só um cochilo e, ainda entorpecido, outra vez sou lançado à mesa do bar. E olho. Eu de Preto e Eu de Cinza, como sempre igualmente perdidos diante do que seja o amor; algo que ainda não veio, nem a um nem a outro". 

(Trecho de Prelúdio de passeio ao Sol poente, que integra Decálogo de sonhos, livro de contos inédito)

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