Luana Muniz




Nome completo:  Luana Santana Muniz.

Nome artístico: É Luana Muniz mesmo. Sempre quis algo estrambólico, qualquer bruxaria, mas no fundo é só Luana.

Signo: Sagitário, como os bons crioulos baios ruanos.

Religião: A minha. Criei uma própria, Luânica, fora do espiral da doutrinação. Eu gosto de Deus. Gosto tanto que nem acho que Deus seja homem. Para mim, Deus é mulher e meu maior contato com o invisível. Mas não rezo a Deus(a), não: ajoelho na linguagem e falo de coisas que não têm nome nem corpo. Flerto muito com a espiritualidade, com o budismo, com o druidismo, com os banhos de descarrego e as benzeduras de minha avó. Uma mistura infinita.

Time de futebol: Cruzeirense saudável.

Livro de cabeceira: A Obscena Senhora D., da Hilda Hilst.

Trajetória literária: Comecei a escrever por pura libido. Era uma jovem e maluca leitora, portanto, a escrita se instalou na minha vida como algo anatômico, um sexto dedo insólito. Hoje em dia eu tenho um editor, que tão gentilmente me convidou a publicar, mas o enrolo demais, pobrezinho. Há algumas outras convocações editorais também... E se não fosse meu postergar eterno, eu sei que já teria traçado um caminho literário menos desmazelado. Escrevo bastante, organicamente, em minha defesa. Saí em alguns blogs, antologias, sites. As pessoas usam a notável palavra para me designar: “poeta”. Agrada-me, mas de modo simples: fico inchada e consciente de que o problema é que estou sempre arredando a escrita do meu destino por petulância mesmo. Defeito intratável meu. Então, escrevo por instinto, quando acordo predisposta, quando o mel respinga e a alma murmura. Um troço assim, natural, sem necessidade premente de formalização. No dia em que eu publicar um livro – e eu vou -, será mais por satisfação pessoal do que por iluminação ou reconhecimento.

Você escreve para conquistar o mundo ou para agradar os consagrados?
Houve uma época que eu achei que escrevia para ser amada. Nunca fui nenhuma paladina do amor romântico, mas vivo em constante turbulência com essa ideia. Eternamente dividida entre querer ser amada e me espavorir pela remota possibilidade de. Acho que, no fundo, escrevo numa tentativa sincera de ser underground, dar corpo aos meus vícios desconjuntados. Uma mania ranhosa de desejar o todo. A princípio, não quero conquistar nada nem agradar ninguém. Os consagrados, que se lixem todos, com as suas bocas escancaradas repletas de dentes. Escrevo para o meu deleite. Não canso de buscá-lo em tudo que faço. Meio vaidosa, para a minha sorte e o azar do mundo.

Escrever é “questão de vida ou morte”?
Fico desgostosa desse arquétipo intocável da escrita, como se fosse um deslumbramento de outro mundo, direcionado apenas aos virtuosos de espírito. Balela! É trabalho com a linguagem e, no meu caso, sustento porque gosto de ter a falange de demônios a meu dispor. De resto, nenhum compromisso vital, nenhum grande divinatório, nenhum gênio absoluto. Gosto de escrever porque sim, não por necessidade ou sebastianismo. Sou uma mulher comum com obsessões comuns. Isso é maior que viver ou morrer e extrapola os limites do existencial.

A literatura veio de berço ou de um amor não correspondido?
Como a maioria das coisas na minha vida, veio porque eu estava distraída e não tinha nenhum empecilho ético (raramente os tenho). Então, os demônios acocorados em minhas costas subitamente festejaram. Botei no papel a minha completa falta de vergonha na cara. E adorei.

Qual a utilidade da literatura em sua vida?
O pecado de Eva foi querer saber. O meu também.

Há um ritual para você escrever? Qual?
Acho que não. Não conscientemente, pelo menos. Não sento e escrevo de forma pragmática, tampouco superestimo minhas emoções pessoais a tal ponto. Vou anotando e acumulando frases ao longo dos dias e meses, e depois empilho tudo igual num jogo de lego. Os padrões eu crio na hora, de acordo com o meu desvelo do momento. Se eu programasse a escrita, morreria de tédio. É solene, de toda maneira, porque entorna meu coração de uma energia delirante. Isso me basta.

Tudo é válido em literatura?
Sou afeiçoada por temas intensos, o excesso, a carne, a paixão. Acho que isso diz muito sobre o que acho lícito ou não. Na ficção tudo-quase-sempre vale. Até mesmo não valer nada. O preço é exorbitante, mas o desafio é adorável. Só não gosto de ser confundida com os pulhas da “poesia marginal”. Nada contra, mas pouco me importo com seus cultos frívolos. O submundo a qual pertenço é outro: apertado, embora cheiroso. Feminino. Um limite estendido. No tipo de literatura que faço estou sentada no lobby e o diabo serve canapés.

A crítica tem valor mesmo se o alvo da crítica é a sua obra?
A gente escreve porque quer ser lido e porque quer estourar a redoma. Sem mutualidade não tem literatura. É fundamental para mim que me estranhem, sem dúvida. E que me beijem ou cuspam ou xinguem. Fico encantada quando se encrespam comigo. Sem a faca apontada para o nosso peito pelo menos uma vez na vida seria muito chato, você não acha? Ficaria arrasada se todo mundo gostasse de mim sem nada a objetar.

Autor ou autora que você ainda não alcançou.
Em meu íntimo, não quero alcançar ninguém, salvo eu mesma. Quero beber de todos, é diferente.
  
Entre escrever a obra-prima que te dê uma vida gloriosa e uma morte tranquila, o que você prefere? 
Deve ser malditamente chato escrever uma obra-prima. Eu não quero o glamour dos velhacos comendo rosquinhas amanteigadas na Academia Brasileira de Letras. Além do mais, estou viva porque vou morrer. É meu direito não ser tão nobre a respeito. Às vezes fico brincando que tenho uma criatividade clichê espantosa e merecia botá-la para fora numa obra “Chick Lit” ou “New Adult”. Todo dia essa ideia ganha um contorno novo em minha mente. Sinto que faltam bons romances comerciais no cenário brasileiro. Quem sabe um dia? Por hora, vou ficar aqui escrutinando o caos, contando ossos, esfregando coxas e dobras. Não desejo nada de especial, fora TER o que desejar.


*   *   * 


Tenho essa boca enorme, inconveniente como
o pulsar de um coágulo, amor
quisera ser menos Eva e menos arrependida
a fratura exposta na costela de Adão. essa culpa bíblica.
nada mudou.
ardem os olhos agora, como ardiam antes
da batalha de Waterloo
180 é o número dos meus grilhões diários
em qual local da casa é melhor
para meter uma bala na cabeça
em qual local da casa, amor
na escuridão mais translúcida
que é a mais traiçoeira das escuridões
ou usando o seu faqueiro tramontina preferido?
nas minhas mãos é verão todos os dias
quero sonhar cavalos
muitos cavalos
maligna e meio lépida, 
certa vez
botei arsênico no scotch de Alberto
sua mão inteira em minha vagina
Ele preparando as malas,
me contando que vai morar com
uma prostituta chamada Suzana
muito melhor na cama do que eu
com quem dorme
e chora encostado nos crisântemos
há mais de 2 anos
A sabedoria – quando chega, amor
A sabedoria quase nunca serve pra nada.

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