Carlos Vilarinho




Nome completo: Carlos Antônio Vilarinho do Carmo

Nome artístico: Carlos Vilarinho

Signo: Virgem

Religião: A fé, os astros e as boas energias.

Time de futebol: Esporte Clube Vitória 

Livro de cabeceira: Muitos: Crônica de Uma Morte Anunciada (Gabriel Garcia Márquez), A Morte de Ivan Ilitch (Tolstoi), Angústia (Graciliano Ramos), A vida breve e feliz de Francis Macomber (Ernest Hemingway) entre outros.

Sua trajetória literária (livros lançados, participação em coletâneas etc.): Três livros de contos: AS SETE FACES DE SEVRINA CAOLHA & outras histórias, O VELHO-18 contos cotidianos e fantásticos, BACULEJO. Dois romances: LABIRINTO-HOMEM, OLHO MÁGICO (lançamento em abril desse ano).

Você escreve para conquistar o mundo ou para agradar os consagrados? 
Eu escrevo para me salvar, para me divertir. Escrevo para desafiar o real.

Escrever é “questão de vida ou morte”? 
Escrever é uma questão de sobrevivência, desafiar os limites e as regras. 

A literatura veio de berço ou de um amor não correspondido? 
Nem de um, nem de outro. Veio do estranhamento que vejo o real. Dos absurdos. O real é mais estranho do que a ficção, diria Borges, e concordo com ele.

Qual a utilidade da literatura em sua vida? 
Na minha vida não influi em nada socialmente ou qualquer coisa nesse sentido. A literatura é para mim uma questão de sobreviver, como disse anteriormente. É difícil se relacionar com outras pessoas, ou você vive "em falsete" ou em reclusão. Gostaria de viver em reclusão, mas não tenho condições. Então sigo as histórias, me envolvo e só consigo ficar bem quando faço literatura.

Há um ritual para você escrever?
Gosto de escrever de manhã bem cedo, acordo umas quatro da madrugada e escrevo até as nove. Depois retorno ao fim da tarde ou antes de dormir (costumo dormir cedo, antes das dez) para revisar o que escrevi pela manhã.

Tudo é válido em literatura? 
(Risos) Acho que sim, tudo válido em literatura... às vezes... (risos)

A crítica tem valor mesmo se o alvo da crítica é a sua obra? 
Praticamente todas as falas são críticas, então, se vale ou não, é uma questão de ponto de vista de quem quer se envolver com isso. 

Autor ou autora que você ainda não alcançou.
Ah, não sei... não penso nisso, não. Cada um tem sua história.

Entre escrever a obra-prima que te dê uma vida gloriosa e uma morte tranquila, o que você prefere?
Considero Van Gogh um dos maiores artistas de todos os tempos, ele conseguiu fazer literatura com a pintura, estranho isso. mas é genial. Talvez a vida gloriosa não se apresentou para ele, nem tampouco teve uma vida e uma morte tranquila. Gostaria de escrever algo que fizesse com que as pessoas pensassem mais em si mesmas e conseguissem enxergar o que há ao redor por aí, ou muitas coisas que estão escamoteadas, mascaradas. Lógico, não seria auto-ajuda, mas uma literatura como a dos russos, por exemplo, ou de Philip Roth, mas não sei se seria obra prima.


***


Quando eu era criança sofria os reveses do feriado de dois de novembro. Era uma data triste, fria e modorrenta. Interessante que apesar dessa qualificação o dia era claro, bonito e o sol aparecia para arrebentar moleiras na velha Bahia. Ele sempre aparecia assim, mais intenso do que a própria adoração religiosa, nessa data. Hoje em dia, ninguém se interessa pelos mortos. Nem pelos vivos. O medo e a adoração impostos pela igreja católica eram tão intensos que nessa data, junto com a sexta-feira da paixão, não devíamos fazer nada, só jejuar e orar. Aquilo sempre me dava nos nervos. 
Havia alguns jovens naquele dia na casa de Esdras e Daniela. Ouvi vozes diferentes, acordes de violão e risos. Olhei discretamente e vi rapazes e moças. A voz de Daniela se destacava, vez por outra ela falava sem vibração “amô-ôôô”. E solicitava que Esdras, o marido devoto, fizesse isso ou aquilo para esse ou aquele convidado. E começaram o culto. Observei aqueles jovens, seus traços, seus modos e sua linguagem. Eram simples, mas me pareceram alienados, como a grande maioria deles hoje em dia. Acreditavam na volta de Jesus Cristo e não davam lugar a outro tipo de conversa. Mas Daniela olhava-os diferente como se ela não fosse dali, tive a impressão que improvisava um comportamento que não era o seu. Então, depois de vê-la cantando junto com todos, minhas dúvidas se acentuaram. Sempre é bom ter dúvidas principalmente com relação às mulheres. Elas nunca deixam um homem ter certeza sobre elas. Isso é bom. No entanto ainda existem bobões românticos que acham que sempre haverá mulher que iria amá-los até o dia que se for. Esdras parecia desse tipo, devia ter uns vinte e nove ou trinta anos. Daniela tinha seguramente menos de trinta.
Percebi que ela, após a reza forte, de vez em quando olhava para a minha varanda. Tive a impressão que seus olhos procuravam possíveis gretas da minha casa. Imediatamente veio ao meu pensamento uma desconfiança que ela fazia aquilo há tempos. Eu estava atrás da porta da sala, no andar de cima que usava como escritório ou sala de leitura e que também dava acesso à varanda. Curvado, olhava as loucas imagens através da ranhura da porta que, naquele momento, ela não sabia existir obviamente.

(Trecho do romance “Olho mágico”, que será lançado em abril de 2019, pela editora Segundo Selo)

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