Davi Nunes




Nome completo: Davi Nunes dos Reis

Nome artístico: Davi Nunes

Signo: Leão

Religião: Candomblecista

Time de futebol: Bahia

Livro de cabeceira: Sobre a beleza, de Zadie Smith e Pele negra, Máscara Branca, de Frantz Fanon.

Sua trajetória literária (livros lançados, participação em coletâneas etc.): Escrevi meu primeiro poema com quatorze anos de idade quando tentava escrever uma música, descobri que isso era poder, depois mergulhei no cosmo do buraco negro de uma existência sensível e uma negrura metálica, ontológica, me arrebatou, me transformou em caracol assustado como também numa pantera a rugir e escriturar zanga.
Desde 2003 venho publicando textos, inicialmente fanzines, livretos, cordéis; o que me fez andar pela cidade do Salvador, mergulhar na sua boemia em busca de tirar alguma grana e abocanhar, de um só golpe, a vida com toda a aspereza e beleza que o ato exige. Ao mesmo tempo em que vivia isso, busquei estudar e experienciar várias formas de escrita, escrevi e descartei muita coisa em busca de uma voz e um estilo para construir as minhas obras.
Em 2011, eu, estudante de letras na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, editei uma revista literária que teve três números publicados, chamada Cinzas no Café, já no ano de 2015 publiquei o livro infantil, Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula e, em 2018, publiquei, pela editora baiana Segundo Selo, o livro de contos Zanga.

Você escreve para conquistar o mundo ou para agradar os consagrados?
Não me interesso pelos consagrados, no Brasil os consagrados são engendrados por um sistema literário fechado, mofado. Com relação ao mundo, busco dominá-lo, ou melhor, domá-lo quando experencio ele em linguagem literária para, muitas das vezes, explodi-lo.

Escrever é “questão de vida ou morte”?
Eu sendo um homem negro, penso que é uma questão de vida contra a morte que nos abate sistematicamente todos os dias nesse país.

A literatura veio de berço ou de um amor não correspondido?
Nem de berço, nem de amor. Ela surgiu de um livro encontrado no lixo, um livro de Einstein, Como Vejo o mundo, depois disso iniciei minha jornada de fé em busca de mais livros e logo já estava ensaiando algumas escritas.

Qual a utilidade da literatura em sua vida?
Como escritor, vejo a literatura como um trabalho, um ofício como qualquer outro, só que mal remunerado.

Há um ritual para você escrever? Qual?
Não sei se é um ritual, mas quando tenho tempo sobrando, acordo cedo e escrevo até meio dia. Depois busco revisar à noite para no dia seguinte continuar escrevendo.  

Tudo é válido em literatura
A literatura é universo expandido, vale muita coisa, não sei se tudo.

A crítica tem valor mesmo se o alvo da crítica é a sua obra?
Lima Barreto dizia que o pior do que a crítica é o seu silêncio sobre a obra. Eu concordo com ele. Às vezes, em relação à obra de escritores e escritoras negras, nem crítica há, só o silêncio mesmo, ou melhor, silenciamento.    

Autor ou autora que você ainda não alcançou.
Zadie Smith, uma escritora excepcional, descendente de jamaicanos e ingleses. 

Entre escrever a obra-prima que te dê uma vida gloriosa e uma morte tranquila, o que você prefere? 
Busco sempre a obra, a morte haverá de chegar de qualquer jeito mesmo, seja tranquila ou intempestiva. 




*  *   *


a caixa


o ventilador – sopro de dragão vulcânico nas minhas costas
o quarto ferve
os homens pálidos com cabeças de ratazanas velhas e dentes de ferrugens
vestem ternos e gravatas na tela
o parlamento – a ciber plasmogamia maldita
 a caixa de vidro onde os mangangás comem dólares e rios
com barrigas atômicas de fera

o quarto ferve
há john coltrane tocando e a cabeça de eternit chapa no gênio
como na lagartixa que passa no teto – céu metálico da favela

a tela 
e a ciber plasmogamia televisiva espelha
o horror dos homens com cabeças de ratazanas pálidas
que pingam larvas de minérios
das suas testas velhas

o mundo gangrena
ferrugens de leis
vestes de togas  
morcegos com dentes de ouro que sopram o fogo do aço da bola
a cor azeviche e o escarlate do fogo
que queima a espessura profunda da pele
o sangue que jorra

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