Evanilton Gonçalves



Nome completo: Evanilton Gonçalves Gois da Cruz

Nome artístico: Evanilton Gonçalves

Signo: Leão

Religião: Não tenho nenhuma inclinação religiosa. Sou ateu.

Time de futebol: Bahia.

Livro de cabeceira: Não tenho livro de cabeceira. Mas gosto, de vez em quando, de reler trechos do livro “Os sonhos teus vão acabar contigo - prosa, poesia, teatro”, de Daniil Kharms.

Sua trajetória literária (livros lançados, participação em coletâneas etc.): Já tive textos publicados nas revistas Subversa, Desenredos, no jornal literário RelevO, no blog Diários Incendiários, nos Cadernos Araxá, no blog da Companhia das Letras. Integro a plataforma Oxe: Portal da literatura baiana contemporânea também com alguns textos. Além disso, publiquei o livro de prosa Pensamentos supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo (Paralelo13S, 2017).

Você escreve para conquistar o mundo ou para agradar os consagrados?
Escrevo por prazer e busco compartilhar as ideias que me surpreendem diante da confusão do mundo. Acho que não tenho como controlar as consequências do que eu escrevo, então, imagino, devo agradar e também desagradar muita gente. Com certeza quero que meu livro circule pelos quatro cantos do mundo. Agradar os consagrados?  Isso me lembra uns versos do Racionais MC’s, “Vida Loka (parte 1)”: “Sei nem quem é ...Mano, não devo, não temo, dá meu copo que já era”.

Escrever é “questão de vida ou morte”?
Não escrevo por uma questão fatalista. Passei boa parte de minha vida sem escrever e tô vivo. Escrever é difícil, dá trabalho, mas, como eu disse, escrevo por prazer, gosto de rir de mim e do mundo. Mas acho que literatura é coisa séria, por isso, quando escrevo, tento impor vigor no meu fazer literário.

A literatura veio de berço ou de um amor não correspondido?
Venho de uma família de não leitores. Os livros chegaram para mim de uma forma bem inusitada.  Um tio que trabalhava de serviços gerais numa gráfica levava uns livros para casa dos meus avós na Fazenda Grande do Retiro e lá, num quarto minúsculo, me vi fascinado por aqueles textos que não entendia muito bem, mas que me fascinavam. Não tenho dúvidas de que a literatura, para mim, veio de um amor não correspondido.

Qual a utilidade da literatura em sua vida?
Gosto muito mais de ler do que de escrever. A literatura serve, para mim, como um portal para viajar por diferentes mundos. E eu gosto de viajar.

Há um ritual para você escrever? Qual?
Não. Sou muito pragmático. Quando uma ideia se sustenta muito em minha cabeça, sento e começo a escrever. O que acontece é que, quase sempre, releio muito, reescrevo muito. Mas se a ideia inicial se materializar como o centro do texto, sinto uma enorme alegria. Aí, sim, tenho interesse de compartilhar com o mundo.

Tudo é válido em literatura?
Essa pergunta me faz pensar nos versos de uma música de Don L:

“[...] o principal de tudo: liberdade no sentido mais pleno de sua palavra
Liberdade na premissa genuína do que é ser livre
Liberdade, cada um faz seu trampo
A forma que quer, do jeito que quer
E vamo pra luta, negão
Vamo pra luta”

A crítica tem valor mesmo se o alvo da crítica é a sua obra?
Sem dúvidas. Acredito que a crítica séria contribui para instigar os diálogos e provocar reflexões sobre o fazer literário. Penso que a crítica é sempre bem-vinda.

Autor ou autora que você ainda não alcançou:
Acho que essa é mesmo uma tarefa impossível. Mas escrevo também para perseguir esse mundo de gente imensurável.

Entre escrever a obra-prima que te dê uma vida gloriosa e uma morte tranquila, o que você prefere? Justifique. 
Essa pergunta me lembra os versos do Racionais MC’s novamente, “Vida Loka (parte 2)”: “Viver pouco como um rei ou muito como um Zé?” E aí eu penso no livro do Fábio Mandingo: “Muito como Rei”.  Eu quero ser lido agora e depois que não estiver mais aqui, não quero uma vida gloriosa, quero, como muitos brasileiros, uma vida digna. E, sem dúvidas, uma morte tranquila. Apesar do ímpeto de ostentação que nos cerca, ainda prefiro a temperança.



*   *   *



Olhos desviantes


     É sempre assim: estou lendo e ela vem toda manhosa, como quem não quer nada e se aninha a mim. O que vocês fariam, minha gente? É gostoso sentir sua presença. É a rotina com toques de surpresa. Ela rouba minha atenção. Gosto de sentir seu corpo me aquecendo. Até dispenso uma mão do livro para lhe afagar a cabeça. É sempre bom compartilhar leituras. Ela olha para o livro. Sorrio. Ela nunca pergunta o que estou lendo. Volto a ler. Proceder à leitura é maneira de dizer: ela quer atenção. Puxa meu braço para si. Em silêncio e com seu gesto me diz: não percebe? Faço questão de estar ao seu lado nesse momento. Sorrio.
    Seja na cama toda arrumada, no sofá, com travesseiros briguentos, ou na rede, balanço certo de nosso aconchego, basta eu abrir um livro e é como se uma luz projetada aos céus solicitasse sua presença imediata. Ela vem. Ela sabe o que quer. Se houver hesitação de minha parte, ela logo se entendia. Não tem duas conversas. Quero continuar retribuindo carinho. Quero ler.
     Trocar carinho é algo maravilhoso, mas não consigo interromper uma leitura prazerosa facilmente. Ela sabe. Assim, muitas vezes ela perde, e parte em retirada, um pouco amuada, com olhos de quem não quer olhar; outras horas ela ganha, sabe disso e se espalha em mim, e eu sou só braços e afeto desmedido, de modo que as palavras, todas elas juntinhas, voltam a adormecer, bem ali ao nosso lado.
     Sabemos que o tempo nunca fica parado. Enquanto “lemos”, percebo que ela fechou os olhos. Me inclino para pegar um copo d’água e meu movimento, que julguei sereno, lhe parece brusco. Recuo. Ela acorda. Me olha como quem acabou de descobrir que foi traída. Levanta ríspida e me arranha o braço. Sangra. Peço desculpas por educação. Não gosto de conflitos. Não demora para que ela se afaste. A vejo partir e me resigno.
      Volto a me inclinar e bebo de vez toda água que estava no copo.
   Gosto de minha gata. Gosto de sentir seu amor e desprezo genuínos. Ninguém é amável o tempo todo. Gosto de saber que mesmo estando ali no meu canto, sou capturado pelo seu campo de visão enquanto ela contempla o mundo ao seu modo. Ela é estrábica. Mas o amor é também isso: olhos desviantes.

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